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Layout por:
Coveiro ¤X¤
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Fim de ano no laboratório - a faxina Japonês tem costume de todo fim de ano fazer aquela faxina, pra entrar o ano com tudo limpinho. Na verdade, acho que isso deve ser um costume mundial, sei lá ano novo, vida nova. Pois é não sei como eles não morrem fazendo a tal da faxina. Marcamos cedo, todo mundo veio. Aí vem a parte interessante: a limpeza dos laboratórios durante o ano todo é responsabilidade da gente. Não existem faxineiros nesse prédio. E acontece que varia de lab pra lab. No da Cleide eles fazem faxina toda semana (pelo menos passam uma vassoura e um pano molhado), o meu, desde que eu estou aqui, nunca vi nada parecido, no máimo alguém tira o lixo e leva lá pra fora. Mas voltando a parte de não saber como eles não morrem, é porque a coisa funciona assim: nesse dia é a hora de enxugar e passar um spray limpante nas janelas. daí vc vê gente pendurada do lado de fora, se equilibrando em cadeiras giratórias, subindo nas mesas ou nos aquecedores, como eu digo, dando idéia ao cão. As janelas desse prédio antigo são bastante grandes e altas, daí já viu... pelo jeito eles já são craques, não ouvi história nenhuma que falasse de alguém que despencou janela abaixo, enfim... Tirando isso, a parte impressionante: o lixo. estou com uma impressora jato de tinta, uma a laser, uma câmera digital e uma filmadora. Tudo velhinho, é vero, mas aparentemente funcionante. Fora isso um micrótomo velho pra caramba mas super conservado foi pro lixo... enfim... Depois foi a hora do boonenkai ("esquecer o ano") (vulgo hora de encher a cara). aí foi todo mundo beber todas, uma confusão...
Escrito por raposa vira lata às 07h16 O dia que eu vi alguém caindo tem dia que a gente cai, tem dia que a gente vê gente caindo... pois é, ontem a noite estávamos indo pra casa duma amiga brasileira quando um japonês passou correndo, do outro lado da rua. Não me pergunte como eles fazem isso, tava escorregadio pra caramba e ele a todo vapor. De repente, a gente só vê o japonês sumindo atrás duma montanha de neve, um montinho de neve voando e os pés do japa aparecendo por cima da montanha. Como toda boa brasileira, eu e a Cleide não seguramos o riso, depois que conferimos que ele estava vivo e saiu correndo de novo. Eles não aprendem...
Escrito por raposa vira lata às 07h01 Meu natal japonês esse é o famoso pinheirinho, tomando uma luz na minha mesa... nem sei se presta ou não, mas visto que a janela tá fazendo um frio medonho e os dias andam muito escuros, acho que ele está mais feliz na minha mesa... heheheehehe! A foto ficou medonha, mas é a única coisa digital que eu tenho, o celular... isso aí ensacado na direita é a minha lupa. Pois é, tenho uma só pra mim... bacaninha, não tem luz, mas isso é o de menos. heheheehe. Isso vermelho é o papai noel de latão. a luz atrás do biombo é a tentativa de criação de pés de camomila da outra garota do lab. Pra ver que eu não sou a única anormal daqui.
Escrito por raposa vira lata às 09h56 na terra do inverno gelado - a temperatura mais fria até agora Condições atuais: -5 graus A neve que derreteu à tarde virou gelo. Salve-se quem puder...
Escrito por raposa vira lata às 05h26 A arrumação (discreta) para o natal - na terra dos não natalinos Ontem comecei os preparativos para o natal. Sempre quando chegava o natal era tempo de tirar os enfeites doados pela professora Irene das caixas que ficavam esquecidas debaixo da pia do laboratório. Pra variar, a primeira coisa a fazer era levar tudo pro insetário, onde a temperatura fica absurdamente quente nesses tempos de verão, pra matar o mofo ou pelo menos fazer com que o cheiro diminuisse um pouco. Lá íamos eu e tininha, e de vez em quando alguma boa alma também se juntava à bagunça que era enfeitar o lab. Da última vez tivemos a idéia de colar as coisas no teto, e por causa disso algumas bolas de vidro se perderam. Eu me pergunto com estão as coisas esse ano... bom, numa terra onde cristão é raridade, natal aqui é sinônimo de papai noel e presentes. nem feriado é. As ruas estão enfeitadas, é verdade, iluminação e enfeites são muito bonitos, alguns deles super ultra cheio de coisas, mas nos laboratórios as coisas são muito sérias. Aí tomei decisão de pelo menos enfeitar a minha mesinha... nada muito cheguei pra não pensarem que fiquei doida, nada muito chocho pra também não perder a graça. Comprei um pinheirinho de verdade mini mini, que vou colocar uns enfeitinhos proporcionais a ele, e um papai noel fofinho de latão, que está pendurado na lâmpada de mesa. Feliz natal!
Escrito por raposa vira lata às 00h40 a primeira queda na neve a gente nunca esquece... Tava demorando até... hj foi o dia crucial, após centenas de escorregões e sustos, finalmente a reencarnação da distração caiu. de costas, uma merda. Pra piorar, passam dois japoneses. direto, nem olham pra ver se eu ainda estou viva. Vontade? De ficar no chão e não levantar nunca mais. Machucados? Tirando a vergonha, nenhum. Vamos rir que é a melhor coisa a fazer...
Escrito por raposa vira lata às 23h59 Levando o choque nosso de cada dia o que acontece quando vc junta pelos fofinhos, vento gelado e baixa umidade? Energia estática! Muita! Em qualquer lugar. Alguém alguma vez na vida pensou que porta de madeira dá choque? Exageros e descrendices à parte, só quem tomou choque de porta de madeira sabe como é frustrante não poder evitar. Porque é uma situação inusitadamente ridícula! Porta de madeira? pelo amor de deus, é verdade! E eu odeeeeeeio levar choque! Odeeeeeeeeio!! Todo santo dia, na frente do meu armário, lá estou eu, ou tentando colocar a palma da mão inteira na porta do armário, com o maior cuidado do mundo, ou dando pulos e xingando, depois do famigerado "tec". Até da porcaria do cabide que fica dentro do armário eu tomo choque. E a maior raiva que eu tive foi no começo, quando eu ainda não tinha as manhas e levava pelo menos 3 choques até terminar de colocar todas as minhas tralhas no armário do lab. No começo eu abria o armário, levava um choque, pq me esquecia dos cuidados a serem tomados. Na hora de pendurar o casaco, outro. Na hora de fechar a porta (já tava puta da vida), metia a mão na porta, sempre com um dedo tocando antes do restante da mão, aí tomava outro. desse jeito vou acabar tendo um troço...
Escrito por raposa vira lata às 09h21 a frente da faculdade de agricultura da Universidade de Hokkaido, encontra-se linda e maravilhosamente branca...
Escrito por raposa vira lata às 08h37 Um dia de raposa na cidade do frio-primeiras impressões Pra começar, a neve é linda! Parece que alguém está jogando sabão do céu, ela vai dançando com o vento, a medida que vai caindo. E quando cai no chão, se o vento estiver muito forte, sai voando feito areia em duna, sendo arrrastada. Uma das cenas mais bonitas que eu vi por aqui. A neve daqui é fofinha, essa foi a impressão que eu tive no primeiro dia e na segunda-feira. Fui embora de bike numa boa. O problema foi na manhã seguinte, a neve derreteu e como a temperatura caiu, congelou de novo, virou gelo. Eles vendem sapatos especiais pra neve, a maioria tem solado com uma espécie de areia, feita de concha triturada. A maioria. Eu comprei uma bota dessas de trilha mesmo, com a diferença que o solado dela é bastante alto, o que me ajuda a andar na neve fofa e na água, mas não me salva dos escorregões. Ainda não levei nenhum tombo, mas não deve demorar muito. Conforme o dia vai passando, o caminho por onde o povo anda vai ficando cada vez pior. O mais incrível são as japonesas malucas de salto alto. enfim... depois caem e ficam achando ruim. vai dar idéia ao cão...
Escrito por raposa vira lata às 07h59 previsão do tempo para hoje Máxima 1 grau Mínima -2 graus Neeeeeeeeeeveeeeeeeeeee
Escrito por raposa vira lata às 03h55 A pior experiência estomacal da minha vida
Sábado tive a pior experiência estomacal de toda a minha vida. Aqui vai a história: Fui convidada para um festival tailandês pela pesquisadora visitante que está aqui no mesmo laboratório que eu. Ela vai passar 3 meses aqui e já se enturmou com a comunidade tailandesa que existe aqui em Sapporo (que não é pequena). Ela convidou somente eu e o Sano, visto que somos as pessoas que estão mais próximas a ela. Fomos de trem até uma estação não tão longe daqui, no fim do dia. Estava fazendo um frio medonho e um vento gelado acompanhava a neve. Chegando lá, tivemos algumas apresentações, sorteios de brindes e comida tailandesa. A comida é excelente, com um grande problema: eles adoram pimenta. Como esse festival iria ter muitos japoneses, a cozinheira maneirou no grau da pimenta, então a comida estava no ponto. Muito leite de coco, peixe e frutos do mar, além do famoso curry. Comi muito, a tia me empanturrou de comida. Na volta me deu uma vontade enorme de tomar coca cola. Passei numa loja de conveniência e comprei um litro e meio, pensando em tomar pelo menos metade dela. Voltei pro lab, trouxemos uma marmitinha pro povo que não foi pra festa, e eu tomei 3 copos, feliz da vida. 5 horas depois, acordo com a impressão de estar sendo corroída por dentro, me contorcendo de dor. A pior experiência estomacal de toda a minha vida. Tava tão forte que eu pensei que estava morrendo. Sério. O que fazer numa hora dessas? Entrar em pânico não ajuda muito, mas foi o que eu fiz. Como ir pra um hospital japonês? Pra qual hospital ir? Tomei um remédio e resolvi esperar fazer efeito. Nada. Resolvi usar o método mais nojento: colocar tudo pra fora. Fui lá, mandei ver, não precisei de muito esforço, e vi o que realmente estava me fazendo mal: pimenta. Aí foi pior, pra desespero meu a coisa pareceu mais feia do que já estava. Vomitei sangue. Um pouco, mas o suficiente pra me fazer mais preocupada do que estava. Quem ouviu falar sobre como é confuso ir pra um hospital japonês vai entender porque eu não fui. Resolvi esperar. Tomei litros de água e comecei a fazer uma lavagem estomacal. Deu resultado, continuava irritado mas não doía mais absurdamente. Ufa! Depois de dormir o dia todo e não comer nada, finalmente as coisas amenizaram e ele resolveu voltar um pouco ao normal. Estou viva, sobrevivi à bombástica mistura, pra nunca mais na minha vida...
Escrito por raposa vira lata às 01h18 De onde vem minha paixão por raposas Isso é uma história bastante antiga, que acabou se perdendo no tempo. Algumas vezes me perguntam e a primeira resposta que me vem a mente é: gosto por gostar, porque são lindas, sei lá... a verdade é essa, cada dia que passa eu sou mais apaixonada por elas. Representam tradicionalmente a esperteza (que pode fazer com que elas se saiam bem ou mal, como nas fábulas de Esopo), mas eu prefiro acreditar em algo mais longe do que isso. Elas são para mim a transição entre o cão e o gato. Isso mesmo. Apesar de estarem na mesma família que os cães (a família Canidae) elas sustentam a leveza do andar e o ar esnobe dos gatos. São cruéis como os cães quando caçam mas são suaves como os gatos quando descansam. A própria cara delas, uma mistura entre estes dois animais. As orelhas sempre atentas de um gato, com muitos bigodes, com os olhos grandes e redondos dos cães, tendo a frente um focinho tão parecido com o totó que temos em casa. Sei lá. E assim como o meu amigo X, acredito que os animais exercem uma certa influência sobre a gente. Eu por exemplo, adoro cães, além das raposas. E muitas vezes ajo como eles, quem me conhece sabe muito bem disso. Mas às vezes, quando o cão que existe em mim se machuca, a raposa surge, implacável. E essa sim, é vingativa e impiedosa. Mas raras são as vezes que ela aparece, somente quando as coisas ficam feias o suficiente pra que o alegre totó se sinta terrivelmente magoado. Na maior parte do tempo, engulo sapos, cururus enormes. Pisadas na bola são admissíveis, pisadas no calo são perigosas e mentiras são intoleráveis. E assim eu levo a vida.
Escrito por raposa vira lata às 03h26 Lembranças do longo caminho até o outro lado do mundo - bastidores 5
Algumas semanas depois o resultado saiu, eu tinha passado e tinha que fazer uma bateria louca de exames. Exame de tudo, e eu sem dinheiro. Tinha duas semanas pra entregar a papelada. Fora isso, ainda não tinha carta de aceite do orientador, eu estava levando meu contato com ele com o maior cuidado do mundo. Os exames foram desde raio x do tórax até exame de vista. Consegui a maior parte dos exames com a ajuda da minha amiga Sandra, que conhece muita gente no hospital das clínicas da UFPE. Alguns eu tive que fazer fora e o aval final foi feito por um clínico muito maluco. Nesse meio tempo, chegou a hora de coletar os dados pra tese do mestrado em Biologia Animal. Fui pra Petrolina, ainda com a incerteza se ia receber bolsa ou não. Chegando lá, meu orientador mandou que eu me virasse pra encontrar uma área que se encaixasse nos planos do projeto e que me virasse pra arrumar transporte pra essa área. Aconteceu que encontrei a área, numa região longe pra burro da cidade e localizada numa área famosa por ter assaltos. Impossível. Mudamos o projeto todo de novo, uma loucura. Orientadores pensam que a gente pode fazer qualquer coisa que eles inventam. Incrível, como se a gente fosse fada madrinha, capaz de balançar a varinha de condão e zás, aqui estão os dados que vc quer! Pois é, penei. Mas aconteceu uma coisa maravilhosa, parecia que tudo ia dar certinho mesmo. Minha mãe é professora de japonês há muitos anos. A mãe de duas alunas trabalha vendendo produtos agrícolas e ela tem muitos amigos na Embrapa. Um dia minha mãe comentou isso comigo e disse que ia falar com ela pra ela me levar pra fazer uma visita na Embrapa, um dos meus sonhos. A Embrapa fica na zona rural de Petrolina, a 45 km da cidade. Fomos no dia seguinte, eu, ela e o filho, Neto, cara que eu conheço desde quando ele tinha uns 6 anos. A gente sempre jogava queimada junto, era um bom amigo. Hj em dia tá um homenzão, super simpático. Pois é, pra variar, paquei o maior mico de novo. Pensei que a gente ia visitar campo, então fui vestida com roupa de campo. Terrível engano, todo mundo muito elegante na Embrapa e eu lá, com o maior jeito de pobre. Aí nesse dia era aniversário da doutora Flávia, a galera do laboratório de entomologia tinha preparado uma festa surpresa pra ela. A Monica me apresentou pra todo mundo. Depois a doutora Flávia chegou, a gente cantou parabéns e depois eu fui apresentada a ela. A Monica disse que eu estava trabalhando com joaninhas, a doutora Flávia tinha algumas que ela estava pesquisando naquele momento. Ela se empolgou comigo e fomos ver a pesquisa dela. Eu me animei um pouco mais, ainda estava bastante preocupada com o que ia ser feito, não tinha nem a área ainda. Aí ela me perguntou se eu gostaria de estagiar com ela. Adorei, amei, agradeci aos céus e vi que definitivamente tem alguém que guia minha vida com um carinho enorme. Eu peno, peno, mas no fim todas as coisas que eu quero eu consigo. Sei lá, vai ver é pq eu não tenho grandes pretensões, não sei.
Escrito por raposa vira lata às 02h12 Eu sei mas não devia - Clarisse Lispector Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, se perde de si mesma.
Escrito por raposa vira lata às 07h52 Pra agradecer à altura e pra agradar meu amiguinho X, vejam o que ele escreveu sobre mim. O maior mico da minha vida. kkkkkkkkkkkk. lambidas aos bonzinhos e patadas para os ratos!
Escrito por raposa vira lata às 10h29 |